23.8.08

Beleza Pura, a novela

Rejane Fradique tem 22 anos é baiana e modelo profissional com uma carreira em ascensão nas passarelas brasileiras e internacionais

A atual novela das sete da rede Globo teve certamente sua audiência melhorada depois que a Rakeli consagrou o estilo "Sou burra, mas tô na moda".

Mas Beleza Pura também poderia ter se destacado se fosse uma novela sobre a beleza negra.
A novela tem como música de abertura a composição de mesmo nome Beleza Pura de Caetano Veloso.
A letra da música, talvez tente fazer uma exaltação à beleza negra, mas esbarra em estereótipos e preconceitos raciais que na verdade aprisionam a beleza negra. Leia sobre isso, aqui.

Já, a novela Beleza Pura prefere a invisibilidade do negro com exceção do vídeo de abertura.
O texto de apresentação da novela se vale de um ditado popular: "não faça isso porque é feio"(*)
Em tempos pós-modernos até o feio pode estar na moda, mas não é disso que a novela trata.
A novela trata a beleza como moda, o corpo como um produto da moda.
Na abertura apresenta seis corpos de biotipos idênticos caminhando juntos como se estivessem numa imensa passarela com as modelos usando roupas com os mesmos modelos e cores, cabelos soltos com os mesmos cortes e efeito esvoaçante, os tons de pele das modelos variam num quase degradê com duas garotas negras, uma garota de descendência asiática e quatro garotas brancas.
O cenário é 'clean', sem acessórios e simula um espaço vazio com um fundo infinito em branco, emblema da pureza: beleza pura.

A novela em seu desenvolvimento chega a ter num certo momento três clínicas e um salão de beleza e em nenhum deles havia uma trabalhadora ou cliente interpretada por uma atriz negra.
A história da novela não reserva qualquer semelhança com a letra da música de abertura e nem seria obrigatória tal relação.
Contudo, ela não deixa de revelar outra contradição, que é a invisibilidade em que é colocada a beleza negra inexistente diante do ideal de beleza (pura) que é representado.

Como observou recentemente Raimundo Sodré num artigo sobre a decisão da atriz e produtora teatral Marilia Pêra em convidar o ator negro Lázaro Ramos para interpretar um personagem que no texto é um branco inglês: "a decisão sobre quem pode ou não falar, ser visto e ocupar os lugares do privilégio, é de natureza estética, no sentido radical desta palavra. Na raiz, estética e política coincidem", observa Sodré.

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Este exemplo demonstra que não é preciso guardar o paradigma da verosimilhança para a representação da realidade na ficção e muito menos para entendermos que a beleza não tem cor e não vem acompanhada de talento.
O que a beleza requer são as possibilidades de ser construída e reconhecida ainda que sobre ela Freud dissesse: "essa coisa inútil que esperamos seja valorizada pela civilização".

Aliás, beleza, limpeza e ordem são os pressupostos da civilização moderna, ao menos, no seu ideal eurocêntrico, apesar de suas variações aqui e ali e no tempo.
O trabalho de limpeza e de colocação em ordem são ainda, aquilo que Freud aponta em sua história sobre a modernidade, uma espécie de compulsão à repetição.
Seu resultado danoso é que foge ao controle e se torna rotina, uma obsessão.
Nada pode ser impuro, nada pode estar fora do lugar e em decorrência pressupõe um mundo onde tudo é fixo, onde cada coisa tem seu lugar - onde o negro tem o seu lugar e nós sabemos qual lugar nos foi reservado.
Assim foi no mundo pré-moderno, ao contrário na modernidade onde nada é fixo, tudo está em movimento.

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Por isso, a novela Beleza Pura com o seu pressuposto de limpeza e de sua 'estética ordenada' ao criar um lugar simulado, virtual da realidade, mas com um contexto atual, possui na opção tomada de invizibilizar a beleza negra, uma decisão política.
E não seria só por negar à beleza negra uma visibilidade, é também uma invisibilidade ardilosa semi-ocultada pela falsa exaltação que também é feita pela letra de Caetano Veloso.
Como naquela velha história de repetir sempre uma mentira mesmo que através do falso elogio, até que se acreditem nele, pois no que crêem é outra coisa.

Há um único personagem negro na novela ou será um ator negro interpretando um capanga?

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