14.8.08

Katleyn Quadros

Não é de surpreender que o noticiário sobre a primeira medalhista brasileira ignore a sua identidade racial. Katleyn Quadros deveria ser investida de sua identidade negra ou isso deve ser ignorado em nome do universalismo?
Por que vemos na mídia internacional e local um noticiário que não oculta a identidade negra de Barak Obama e a insere num contexto de questões norte-americanas e mundiais, enquanto no Brasil, a atleta negra Katleyn não tem sua identidade negra reconhecida e valorizada?
Por que a mídia nacional não deveria por sua vez servir à auto-estima do povo brasileiro concedendo a Katleyn o reconhecimento da 'marca racial' como um valor social positivo?
Talvez porque modernos e pós-modernos euro centrados e globalizados acreditem que qualquer identidade que não seja 'o seu universal' é transformável no seu mosaico identitário (fragmentos?) construído dos cacos da destruição moderna.
Katleyn Quadros é a cara daquele Brasil teimoso, periférico e excluído que teima na esperança moderna de ter uma vida melhor, ela representa uma nova geração que desenvolve seus potenciais a despeito do desprezo com que o Estado sempre tratou negros e índios.
A vitória de Katleyn Quadros é um sucesso da iniciativa de sua mãe Rosemeire Lima uma mulher empreendedora que investiu na determinação da filha no judo para atingir uma meta.
Sem patrocínios Katleyn demonstrou uma determinação exemplar diante da falta de recursos e como declarou sua mãe que a acompanhou até Pequim, isto foi possível somente com a ajuda da sua comunidade, seus parentes e vizinhos.

A conquista de Katleyn é mais significativa por ela ser a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha em um esporte individual e por ser uma jovem negra.
Sua história pessoal se revela comum à de milhões de jovens com histórias iguais, até o ponto em que sua mãe e sua família acreditaram na sua diferença, na sua qualidade e a apoiaram para vencerem juntos as barreiras do isolamento social e da falta de visibilidade. Transformando as adversidades que sua história, seu corpo, sua cor de pele, sua condição social carregam em impulso para suas conquistas.
A despeito disso, um discurso universalista pseudo-inclusivo impõe à identidade negra uma invisibilidade teimando em excluí-la de seus próprios corpos.

Na edição de 12/08/2008 o Jornal Nacional da TV Globo disse que o judoca Tiago Camilo havia ganho sua medalha "na raça" numa curiosa inversão de valores em que a palavra raça é usada como sinônimo de vigor e determinação. Enquanto é negada ao negro é possível ser atribuída ao atleta branco (judoca como ela) como uma positividade negada à atleta negra.

Acredito que este foi um
momento único em que a mídia brasileira poderia oferecer à sociedade de forma transparente um valor e um sentimento positivo à identidade afro-brasileira com forte doses de esperança, assim como a identidade racial do candidato negro à presidência do EUA Barak Obama inspira esperança e criatividade em diversas editorias de notícias internacionais e locais.

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