25.11.08

Algumas afirmações na Negação do Brasil


A oportunidade de assistir ao filme A Negação do Brasil de Joel Zito se deve a melhora da programação e da transmissão da TV Brasil (ex-TV Educativa) cujo sinal de transmissão já chega com regularidade na região serrana do Rio. Por isso, no último domingo 23/11 pude finalmente assistir ao filme e conhecer e rever algumas cenas de novelas e os depoimentos das atrizes e atores negros que sustentam a excelente narrativa do filme mostrando a face racista das telenovelas brasileiras.

Conheço muito parcialmente a filmografia dos cineastas negros sejam do circuito comercial ou do circuito alternativo o que não me qualifica para um debate sobre cinema. Mas, como audiência me arrisco a registrar sobre A Negação do Brasil de Joel Zito a mesma emoção que tive quando assisti por exemplo o filme Abolição de Zózimo Bulbul isto, para citar dois filmes do que acredito componham bem o acervo da filmografia negra brasileira que precisa de forma mais objetiva disputar melhor espaço de mídia.

Minha intenção é comentar algumas cenas pinçadas d' A Negação do Brasil e que ilustram bem o debate atual sobre o racismo e seus temas correlatos.

O filme demonstra como o racismo é um eixo regulador das relações do ator e da atriz negros com a televisão e particularmente com as telenovelas.

Uma cena:
A atitude de recusa do ator negro Milton Gonçalves que sob o risco de perder seu emprego decide não comparecer a um desagravo ao ator branco Sérgio Cardoso que fora duramente criticado por Plínio Marcos - jornalista e escritor - por ter aceito representar um personagem negro pintando-se de preto - estilo black face do teatro norte-americano e adotado na novela A Cabana do Pai Tomás. Diante da hipótese de demissão de Milton Gonçalves adverte o diretor da TV Globo Walter Clark: - "se mandarmos ele embora, aí vai se concretizar o racismo".

Comentário:
Assim, negando o que era um escandaloso racismo, o uso de um ator branco pintado de negro - o que ocorrera por imposição da empresa de cosméticos Colgate-Palmolive patrocinadora da novela - o dirigente da TV Globo utiliza a estratégia que rege o racismo no Brasil, negar a sua existência, a sua evidência, distorcer os seus rastros até o ponto em que se transfere a responsabilidade do ato racista para o negro que ousa enfrentar o preconceito.

Outra cena 2:
No depoimento do diretor de telenovelas Herval Rosano quando da escolha da atriz branca de Escrava Isaura ele alega num primor de ingenuidade pré-adolescente - quando se parece sonso sem ser - que seguira uma indicação de um amigo sobre uma atriz em uma peça na qual a cena que ele destaca no depoimento é o fato dela se apresentar nua(!) além do talento que ele identificou e nas suas demais características(?) para representar uma escrava mestiça.

Comentário:
É o racismo caricatural, cínico, destes verdadeiros personagens da vida real em seus papéis de "donos" do gosto público e que diante de qualquer crítica dizem representá-lo com suas idiossincrasias e preconceitos para se eximir de qualquer responsabilidade pessoal e social diante do público.

Esta atitude é tão comum como aquela que diante de certos questionamentos algumas pessoas famosas alegam que teêm um amigo ou amiga negros ou que convivem harmoniosamente com profissionais negros. Situação que fica demonstrada e desmascarada numa cena da novela Por Amor - que num contexto positivo expõe as contradições das relações raciais mesmo entre casais. A cena referida se passa quando a personagem negra interpretada por Maria Ceiça vê negada sua intenção de ter sua gravidez aceita por seu marido branco, por isso ela conclui que ele só a queria para exibí-la como troféu, cena que se repete na vida real: "minha nega, meu doce".


Outra cena 3:
Vale ainda destacar o depoimento de Cléa Simões que se refere quando a ficção(?) invade a vida real a ponto de a "confundirem" fora de cena criando para ela situações insólitas ocasionadas pelos repetidos papéis de empregada doméstica encenados nas telenovelas.

Comentário:
Daí se configura um outro argumento comum usado para justificar que a telenovela retrata não mais do que aquilo que se vivencia na vida real. É o mesmo artifício do argumento-mestre do racismo agora usado para negar o racismo explícito na televisão. Desse modo, se procura legitimar como numa trama perversa o círculo vicioso que é representado nas telenovelas e que impregna aos atores e atrizes negros que contam unicamente com estes personagens estereotipados que condicionam a percepção pública e ao mesmo tempo servem de justificativa por se apoiarem em suas próprias crenças racistas.

O limitado o repertório de personagens negros na ficção fora dos estereótipos fica evidente mais uma vez quando Milton Gonçalves precisa apoiar-se na sua amizade com a autora Janet Clair para ter a oportunidade de representar um personagem negro "de terno e gravata" como ele queria.


"Não somos racistas" vivem bradando "os 113 anti-racistas", um deles diretor da Globo, dizem eles: - "são os negros os racistas", é isso que afirmam sem pudor desde que os negros se digam negros e seguem assim, faceiros como Caetano Veloso cantarolando o argumento mestre da ideologia racista brasileira promovida por eles e por alguns alegres arrivistas negros.

No entanto, assistindo A Negação do Brasil podemos ver a consistência do racismo explícito na televisão que tenta nos transformar em párias relegando-nos a uma cidadania de segunda classe para que eles os verdadeiros párias da modernidade continuem intocáveis nos seus nichos de poder.


Para saber mais:atabaqueblog.blogspot.com/2008/01/ruth-de-souza-diva-negra.html

3 comentários:

radiomamaterra disse...

Maravilha de Texto , José Ricardo.
Este ar da serra está a lhe fazer bem.
axé
romao

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