27.1.09

Os mulatos do Gois no Carnaval do Globo

O jornalista Ancelmo Gois assina a coluna que leva seu nome no jornal O Globo do Rio de Janeiro ele é um daqueles exemplos que servem ao paradoxo que a mentalidade brasileira produz e que pode ser melhor compreendido se o enxergamos além do olhar mais distorcido que uma ideologia cria quando filtra a 'realidade'.
Sertanejo sergipano, Ancelmo Gois é de um tipo físico resultado da 'mistura das três raças' e que poderia sem qualquer favor a estas origens ser considerado ao seu gosto um 'mulato típico' como também gosta de dizer o Caetano Veloso e outros arrivistas. Acontece que para Ancelmo Gois, mulatos são os outros, aqueles que ele nomeia ao estilo e gosto da Casa Grande certamente por influencia da sua posição social e intelectual superior àquela mulatada que sempre o rodeou desde sua vida sertaneja.
Filho de um comerciante e político do sertão terá convivido com aquela população ignara que servia de cabresto à política da época, voto e mão de obra barata. 
Existem ainda hoje muitos remanescentes da Casa Grande e da Senzala que se deslumbram com as sandices da mulatada alegórica revitalizada na coluna do jornalista.
Ancelmo Gois é também uma espécie de vítima, preso que está às amarras do trauma gerado pelo racismo renitente que formou sua geração, mas que, agora precisa se redimir diante da vitalidade profissional de intelectuais vaidosos que pretendem ser os portadores da 'alma' da cultura popular, num nível mais elevado, é claro.


Formam eles, um grupo que se apresenta como uma espécie de casta intelectual que se legitima através de um tributo moral ao racismo por meio dessas atualizações dos esterótipos que são  utilizados para justificarem-se como se fossem princípios pétreos da cultura brasileira.

Depois da Mulata do Gois eis que surge o Mulato do Gois este certamente não atendendo as suas preferencias sexuais mas como possível tributo ao gosto feminino que compõe sua trupe jornalística - e de seus leitores e leitoras - e que certamente, não apenas por suas origens étnicas- mas por submissão às formas do espetáculo jornalístico que precisam alimentar. Afinal, a quem cabe o papel de ideólogos na mídia senão aos seus funcionários, seus clássicos 'intelectuais orgânicos'?
Esta é uma interpretação necessária para podermos revelar esta farsa promovida anualmente pelo jornal O Globo às vésperas do Carnaval e que serve de justificativa moral para a cota de visibilidade que é concedia à mulher e ao homem negros. É um evento de um 'calendário racista' imposto à população negra por esta marca estigmatizada: mulato deriva de mulo: animal híbrido do cruzamento do cavalo com o jumento. É uma associação por semelhanças e analogias de tipos, palavras e funções onde o escravo era tratado como um mulo, sendo o mulato e a mulata o escravo de um tipo especial: filho ou filha do colonizador, também considerado uma 'peça afeita ao trabalho fosse no eito ou fosse no leito'.

Os Mulatos do Gois se impõe como um evento jornalístico legitimado também por uma arrogante irreverência jornalística que se traveste numa identidade local como 'jeito carioca', porém de alcance nacional e efeitos hegemônicos. Aquelas formas de humos e irreverência que já tiveram na época da ditadura militar um valor positivo, mas que agora serve ao racismo made in Brasil.
Em busca de uma identidade cultural esta parcela da intelectualidade jornalística encontra no 'tipo mulato' a redenção de sua própria mestiçagem, mas por esse artifício livram-se dos traços negróides com que demarcam o espaço e a função dos (outros) mulatos. Diferença exótica que é preciso acentuar mas não sem uma genuína depreciação buscada na tradição  do próprio racismo.
Por meio deste artifício se permitem também (se preciso for) autonomearem-se mulatos como sinônimo de mestiçagem como por vezes podem recorrer, mas que no (outro) mulato que nomeiam, livram-se do estereótipo que vigora no senso comum da hierarquia das cores do racismo à brasileira.
É por esta representação pela semelhança do negro com o mulato feita através dos sinais físicos 'típicos da mulata' (e do 'mulato') como a sexualidade e a força que este grupo se autoexime de uma identidade "verdadeira" deslocando os sinais existentes nas 'formas do corpo', na sensualidade, no ritmo e no estilo que em geral não possuem ou renegam.
Aos estereótipos físicos somam-se os estereótipos intelectuais e o resultado pretendido é 'selar' a incapacidade do negro "em pleno século XXI" de poder atinar na sua própria capacidade de formular sua identidade, auto-valorada sob os termos que positivam sua experiência histórica e suas origens étnico-raciais africanas e indígenas.
Tal inversão pode ser entendida pela metáfora do espelho em que o olhar que contempla cria a ilusão do saber empirista - reconhecida por Lacan como o "júbilo incomparável", a imagem refletida do corpo que se arroga na consciência tornar-se um todo.
Esta é uma conformação típica das identidades 'partidas' que remetem ao outro como seu antípoda sendo uma 'marca' da cultura dominante brasileira que tenta perpertuar-se apoiada numa "tradição" de origem colonial e ainda recorrendo a Lacan caracteriza o "saber paranóico".
Mas como o enredo também é carvalesco seu desenvolvimento é longo e gingado... olha o rabo... olha a cabeleira do zezé, será q'ele é, será q'ele é?

Um comentário:

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e