25.11.09

Tapa na cara da Helena negra em "Viver a vida" na Semana da Consciência Negra

O tapa na cara da Helena negra de "Viver a vida" ocorrido na Semana da Consciência Negra soou como um escandalo e uma provocação para muitos homens e mulheres negras. Inúmeras cartas, mensagens, comentários tem circulado nas listas de mensagens (emails), blogs e tuites (twitter.com) entre outras enviadas a jornais e revistas, além dos contatos face a face onde são manifestas reações de indignação e repulsa àquela cena da telenovela "Viver a vida".
O potencial desta agressão - o tapa na cara recebido por uma Helena negra submetida a sua "culpa", ajoelhada e humilhada diante de uma mulher autoritária - ocorrido na Semana da Consciência Negra poderia ser comparado a uma cena de violência sexual contra um jovem judia na véspera do Yom Kippur judaico ou a uma cena de assédio pedófilo por um padre na Semana Santa cristã.
Mas como não existe respeito à identidade negra, aos seus símbolos, nem à sua cidadania, é banal que a TV Globo e sua teledramaturgia apresentem para o seu público - negros e brancos pobres e uma classe média culturalmente indigente - uma violência simbólica desta magnitude com um cinismo assombrosso.
Mais irônico ainda foi a TV Globo ter acabado de receber um prêmio internacional por uma novela que de certa forma celebra a diversidade, porém não da nossa própria gente, mas de uma cultura estrangeira. A telenovela "Caminho das Índias recebeu o prêmio Emmy como melhor telenovela do ano de 2009.



Tais Araujo, a Helena negra, de protagonista pioneira a cena do tapa na cara na Semana da Consciência Negra


Segue abaixo alguns trechos de cartas e mensagens que circulam na internet sobre o tapa na cara recebido pela Helena negra  em "Viver a Vida":


"DEVEMOS, colocar a questão para debate em nossas salas de aula, o espaço para análise crítica e tomada de posisionamentos." (Conceição)


"...o que chama a atenção é justamente a cena em que a personagem Helena, de joelhos diante de Tereza (Lilia Cabral), assume toda a responsabilidade pela desgraça familiar. A cena permite uma retomada da estrutura muito comum às ditas "novelas de época" que retratam a subserviência negra diretamente associada à autoridade de um mandatário que não poupa esforços para ratificar a segregação, o distanciamento, a assimetria das relações raciais. Desprovida de graça, e o pior, mergulhada num típico figurino da slave colection, Helena irmana-se com a legião de mucamas e afins que sofrem o peso da sujeição..." (Daniela Galdino. Professora da Rede Estadual de Ensino, Professora Visitante da UNEB, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural.)


"Realmente fiquei estarrecido com a imagem de ontem e o tal do manoel Carlos
fez para provocar. Lançar uma imagem dssas na smana do dia 20 é provocação.
Tentativa de reafirmar nossa humilhação, nossa subordinação, nosso lugar,  na
figura da atriz negra com maior visibilidade da televisão brasileira.
Mandou um recado bem forte: Vocês mesmo ascendendo socialmente serão negros e
passiveil de humilhação pelo branco. São inferiores e devem sempre lembra-se do
seu lugar." (Rogério José)



"A Helena negra é culpada por ter abortado, por ter casado com um homem branco e por não ter "cuidado" devidamente da enteada, numa relação que muito nos lembra mucama e sinhazinha." (Luciana Brito
Mestre em História UNICAMP - Movimento Negro Unificado-Bahia)


"...  parece não ter sido à toa que justamente no momento de uma decisão histórica quanto ao conteúdo do referido Estatuto, a Globo tenha lançado ao ar duas novelas com protagonistas negras, atrizes que inclusive têm uma postura racial condizente às suas trajetórias, como são Thaís Araújo e Camila Pitanga. Nas entrelinhas, previa-se uma forjada justificativa à sociedade das "desnecessárias" cotas raciais para os meios de comunicação, já que este espaço vem sendo ocupado pelo núcleo negro da Globo." ( Rebeca Duarte - Advogada e Cientista Política do Observatório Negro)


"ACHEI REPUGNANTE A CENA DA NOVELA VIVER A VIDA NA QUAL,HELENA SE AJOELHA E PEDE PERDAO E LEVA UM TAPA NA FACE.ME REPORTEI AO TEMPO DA ESCRAVIDAO,NA QUAL A ESCRAVA SE AJOELHA DIANTE DA SINHAZINHA BRANCA PARA SERVI-LA E É PUNIDA COM UM TAPA NA FACE.LOGO NA SEMANA DA CONSCIENCIA NEGRA?QUEM LEVOU UM TAPA NA FACE FORAM TODOS OS TELESPECTADORES QUE ASSISTIRAM ESTA CENA E FICARAM HUMILHADOS DIANTE DO MUNDO." (Moslene do Reis) (veja também http://cenpah.blogspot.com/ )


Em resposta à telespectadora a TV Globo mandou a seguinte mensagem:


"Com todo respeito à sua opinião, gostaríamos, em primeiro lugar, de registrar que novelas são gêneros da categoria ficção, sem compromisso algum com a realidade.

De qualquer forma, é estranho que, mesmo na teledramaturgia, se julgue a pessoa pela cor de sua pele. 

Uma personagem negra pode, por exe mplo, agredir uma personagem branca. Mas, por ser negra, não pode ser agredida por uma branca? Pode humilhar, mas não pode ser humilhada?

Entendemos que, na vida real, todas as pessoas devam ser tratadas com respeito e pacificamente, independente de gênero, etnia etc.

E é no campo da realidade que trabalhamos para essa igualdade. Esperando que não se reproduza o preconceito de se identificar determinado comportamento de um indivíduo com a cor de sua pele, menos ainda por segmentos que se consideram discriminados.

Cordialmente
Rede Globo - A gente se vê por aqui."




Um comentário:

:: Soul Sista :: disse...

Estarrecedor mesmo! Escrevi o estarrecimento que senti ao ver a cena, refletindo sobre toda a iniqüidade daquela história toda.
A Globo diz que novela não tem compromisso com a realidade, contradizendo-se, não só em relação ao nome da novela, "VIVER A VIDA", que diz ser baseada na própria realidade quanto a tão conhecida VEROSSIMILHANÇA, amiga de qualquer escritor desde sempre, como bem já tinha teorizado Aristóteles, né não?
Para quem quiser ler, acessar http://brsoulsista.blogspot.com/2009/11/tais-de-joelhos-no-horario-nobre-e.html