19.6.11

Dove nos EUA: racismo e preconceito em propaganda?


A Dove nos EUA está sendo acusada de racismo por esta propaganda (abaixo) que sugere que seus produtos embelezam embranquecendo. A Dove se defendeu alegando que tudo não passa de uma coincidência.
Um jornal norte americano fez uma enquete junto aos seus leitores e a maioria acredita na não-intencionaklidade da mensagem racista. Dão razão assim à empresa pelo que alegou de acaso.

***
Para mim a crítica ao racismo expresso no cartaz é um tanto óbvia e nem tanto sutil. Afinal, não é preciso muito esforço para interpretar a peça publicitária que está associando duas imagens de peles, antes e depois do uso do Dove tendo à frente imagens de três mulheres. Senão vejamos: as condições das peles mostradas no painel de fundo tendo à frente três mulheres com tipos étnico-raciais distintos (cor da pele, cabelos, etc) e também seus biotipo, do mais gordo (negra) ao mais magro (branca). Elas estão colocadas numa hierarquia da mais negra e mais gorda para a mais clara e magra, isto não é uma representação preconceituosa? Antes (before) e depois (after) não quer dizer o que parece? Que antes do uso do produto Dove a mulher de pele mais rugosa depois do uso ficará com a pele mais uniforme?
Sem as imagem não existe qualquer insinuação preconceituosa. Pode até não haver uma intenção objetiva da propaganda ser racista e também preconceituosa com as mais gordas (cadê o conceito de mulher real da Dove?), mas não deixa de existir um racismo sutil e que fica mais curioso com a justificativa da empresa já que se torna no mínimo uma falha (o tal ato falho, revelador das intenções como ensinou Freud) coletivo de uma empresa multinacional. Estranho, não perceberem isso, não é?



O que vale ainda ressaltar é que esta polêmica é saudável e representa uma visão cidadã negro (nos EUA ou aqui) exigindo outras formas de representação sem conotações racistas, sejam elas intencionais ou acidentais.
Chama também atenção um outro aspecto desta representação do negro nesta propaganda da Dove norte americana, a representação de uma escala evolutiva do antes pior para o depois melhor, do mais escuro para o mais claro, do corpo negro para o corpo branco é mais comum à ideia que prevalece no Brasil do embranquecimento como melhora da raça. Se por uma lado aqui consagra a mestiçagem na população não é o que reflete nem na mídia nem na riqueza ou nos poderes públicos. No Brasil os negros só representam o Estado na hora da porrada em outros negros e assemelhados. O modelo que a imagem em "escadinha" sugere é uma inversão do "juntos mas separados" dominante na cultura norte americana. É o modelo da mistura que Brasil exporta no estilo Lobatiano(*) da eugenia.

(*) Monteiro Lobato antes de ser considerado um consagrado escritor infantil traçou como estratégia de sua literatura promover a eugenia (eliminação dos negros, entre outros "degenerados") através do uso de estereótipos do negro criados e usados em séculos de escravidão e que se tornaram palavra-chaves em sua obra. Era essa forma, dizia ele, a mais eficiente para promover a eugenia que ele chama de 'poda'. Isto é, eliminar o negro, senão fisicamente, ao menos simbolicamente. Não acredita? leia mais sobre isso aqui.

Um comentário:

negrafo disse...

A propaganda da DOVE foi ordinária,está ai a cara do racismo disfarçado. Foi de muito mal gosto!!!
vou boicotar o uso dessa marca