15.12.11

Contra o racismo: liberte seus cabelos!

Coletivos protestam contra suposto caso de racismo em escola da zona sul
Por Semayat Oliveira

“Sociedade capitalista, cabelo ruim está na mente dos racistas.” Foi com esse grito de guerra que cerca de 50 pessoas chegaram até a frente do Colégio Internacional Anhembi Morumbi, no Brooklin, na zona sul de São Paulo. O protesto ocorreu nessa terça-feira (13) em apoio ao caso de Ester Cesário, 19, estagiária da instituição desde o início de novembro. No dia 24 do mesmo mês, ela denunciou ter sofrido racismo de uma diretora do colégio.

Segundo a jovem, a funcionária disse que não poderia representar a instituição com cabelos crespos e, para manter a “boa aparência”, sugeriu que alisasse os cabelos. Além disso, mencionou que havia encomendado duas camisetas para cobrir o quadril da estagiária.

A manifestação pedia que a escola recebesse o movimento para um diálogo sobre o caso e reivindicava por reparação e indenização às vítimas de racismo e pela efetivação da lei que obriga o ensino da história da África e afro-brasileira no currículo escolar.



O grupo era composto por diferentes movimentos, como a UNEAfo, organizadora do evento, o Levante Popular, Circulo Palmarino, Núcleo de Consciência Negra da USP, coletivo feminista Yabá e Sarau da Brasa.

Douglas Belchior, membro do conselho geral da UNEafro-Brasil, explicou que a escola se recusou a atender o pedido feito pela entidade, que propôs uma audiência pública sobre o caso. “Nós queremos agendar uma data, o colégio tem a chance de abrir esse diálogo e ser exemplo.”

Poucos minutos depois do início do protesto, estudantes, pais de alunos e funcionários saíram para defender o colégio. Carlos Herculano Ávila, engenheiro e pai de aluno, disse que o colégio não é racista e que a estagiária entendeu mal a orientação de usar cabelos presos. “É apenas um padrão da escola”, disse.



Mas, para todos os protestantes, o assunto é ainda mais profundo e vai além de simples regras de apresentação pessoal. Luka Franca, integrante da UNEafro, disse que a fala da diretora reproduz a imposição de um padrão de beleza eurocêntrico. “Todos os dias, mulheres negras sofrem preconceitos de um sistema que reafirma o padrão caucasiano como belo, gerando um ciclo de violência psicológica em todos os ambientes, inclusive o institucional.”

A assessora de comunicação da escola, Silvia Pereira, disse que a denúncia está em processo de apuração interna e que o colégio vai responder as solicitações. Douglas Belchior alertou que, caso não tenham resposta, outro ato deve acontecer na segunda quinzena de janeiro.

Resgatando a identidade

Neste ano, o coletivo Manifesto Crespo, formado por seis mulheres negras, desenvolveu o projeto “Tecendo e Trançando Arte”, oficina com aulas práticas e teóricas que ensinou homens e mulheres negras a cuidar e a aceitar o seu cabelo natural. Também foram gravados depoimentos em vídeo para a produção de um futuro documentário. As duas ações reuniram 52 participantes.

“Nós provocamos a reflexão usando a frase ‘Quem te penteia?’ Para que a pessoa questione se seu visual corresponde com sua ancestralidade, sua origem. Mostramos o poder de identificação que o crespo tem, seja com trança, Black Power etc., sempre buscamos uma discussão que vá além do belo e que resulte no reconhecimento, na auto-afirmação e na resistência ”, diz Denna Hill, membro do coletivo.



Denna Hill, Yaisa Alves, Nina Vieira e Celisa Campos, do Manifesto Crespo

“Por que você usa o cabelo assim?”, fala Yaisa Alves, também do coletivo, reproduzindo uma das perguntas mais frequentes. “Se vivêssemos em uma sociedade livre, não precisaríamos explicar. Parece que o natural é não ser natural, como se o normal fosse alisar os cabelos e não deixá-los crespos. Isso está errado.”

Elas acreditam que aceitar o seu cabelo é o primeiro passo para uma consciência política e para a desconstrução desse estereótipo eurocêntrico. “A Ester representa milhões de mulheres negras que passaram pela mesma situação e se calaram, fortifica as mulheres negras que estão nesse processo de aceitação. Agora, precisamos continuar nesse caminho,” finaliza Nina Vieira, design e documentarista do coletivo.

Semayat Oliveira, 23, é correspondente comunitária da Cidade Ademar
@Semayat
semayat.mural@gmail.com

Publicado em http://mural.folha.blog.uol.com.br

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