4.1.12

Aquele beijo, o mesmo racismo

Diante da cena de "Aquele Beijo" do dia 4 de Janeiro, Ziraldo certamente diria: "é o racismo sem ódio" com o que Monteiro Lobato concordaria, afinal, ele foi o maior mentor dessa ideia de que o racismo pode ser proferido como uma expressão "normal" da nossa língua escrita e falada.

Nesta cena da telenovela "Aquele Beijo" de Miguel Falabella, o texto e o sub texto são exemplares do preconceito racista substituído pelo preconceito social, mas que se mantém semi ocultado. - "Que exagero!", dirão alguns: - "Você enxerga coisas que não existem!". São estas geralmente as reações dos crentes na democracia racial e que foram certamente, leitores de Monteiro Lobato ou Ziraldo. Mas, vamos aos fatos (linguísticos).

Ricardo e Camila são os personagens da cena, eles são divorciados e estão discutindo sobre o filho que mora com o pai. Ela foi em sua casa cobrar uma explicação sobre a namorada dele, dizendo que não quer que "aquela favelada" conviva com o filho, diz ainda, que não quer que ele aprenda a falar errado.

A personagem Karin é favelada e negra, proprietária de uma pequeno salão de beleza e não fala errado. Camila a considera ainda uma "vagabunda", e para dizer isso, se vale de outros recursos comuns da comunicação acentuando a expressão do rosto numa quase careta e ainda usa de uma entonação forte quase soletrada de "fa-ve-la-da!" e "va-ga-bunda!". Camila foi também, tomar satisfações com a namorada do ex-marido e diz isso a ele como se fossem cúmplices, não mais da intimidade, mas de idéias(preconceituosas?): "você deve saber o tamanho do susto que eu levei quando vi aquela mulher?", diz com forte ênfase de estranhamento. Ele não responde a essa indagação e prefere falar do abandono do lar pela ex-mulher, e ainda, argumenta que ela passou a ter uma moralidade duvidosa. Logo, podemos com isso supor que para ele todos se nivelam, não nas virtudes, mas nos valores e preferências em que se questionam. Ricardo, coloca, assim também sua namorada negra e favelada ao nível da ex mulher que ele agora questiona, já não sendo mais, tão cúmplice daqueles valores preconceituosos que ela insinuou que compartilhavam. Contudo, Ricardo é um médico idealista e a ex-esposa uma ambiciosa vendedora.


Camila havia dito que, quem contou sobre a namorada favelada do ex-marido foi Dalva, a babá negra. Aqui se fecha o círculo do enunciado racista: os personagens, o enredo e suas falas: o casal branco separado, a babá negra negra fiel à ex-patroa, a namorada negra do ex-marido, uma mulher independente. A identidade racial está no sub texto, não está verbalizado nas falas, mas pode ser "lida", percebida visualmente na cor da pele das personagens. Também, o lugar social acentua a condição sobreposta a cor/raça, ambas as personagens negras são faveladas. Elas contudo, se distinguem, uma é babá e mostra-se servil e a outra uma mulher independente, empreendedora que tem seu próprio negócio. Nesta trama mesquinha que envolve as duas personagens negras, o racismo só se revela se buscamos interpretar o que significa esta naturalização que a ficção faz da realidade. O "lugar social" da maioria negra é sabidamente o o do pobre, o do favelado, o do uso incorreto da língua e muitas vezes também da posição servil. Mas é também este outro trilhado pela personagem Karin do caminho escolhido ousadamente por muita gente preta empreendedora. Apesar de estes dois tipos estarem presentes no enredo, o que se destaca é, além de seu confronto, que poderia ser didático, o uso desmedido, chocante e agressivo do sentido racista. É certo que, até o fim da telenovela o bem prevalecerá num final feliz e que o racismo poderá ser até desvendado e punido, ou não. Como se trata de algo secundário à trama principal, sabemos que muitas vezes essas sub tramas podem ficar sem resolução ou terem apenas um desfecho medíocre. Neste caso, prevalecerá mais uma vez, o uso sensacionalista da personagem negra, agora com um racismo "sutil" e cínico que se pode justificar de 'realista' como se isso, revelasse por si todas as camadas da realidade e da trama de poder, de dominação e de aceitação que está presente, mas que é pouco percebida diante dos artifícios da língua que muitas vezes dissimulam o verdadeiro sentido deixando-o semi oculto para confundir e se preciso, nega-lo: - "vocês é quem estão vendo coisas demais!" .

Veja a cena completa no link:

Um comentário:

Valdíria Verdiano disse...

E por falar em novela global vocês já viram a cozinheira da novela Fina Estampa? A preta que faz as empadas no Tupinambar. O que ocorre é que enquanto o filho de Griselda eraa obre eles namoravam e agora que ele é rico trocou ela por uma branca. Pobre, porém branca. Se isso não for racismo...